bom, acho que agora dá prá mostrar meu novo esforço criativo, um projeto que eu venho acalentando já a algum tempo e que eu decidi chamar O Aguadeiro (The Waterman).

The Waterman

The Waterman

outro dia revelei ao meu marido: "eu quero pintar Jesus nu." ele respondeu, depois de algumas de suas piadinhas características, "vá em frente, minha querida. você tem todo o meu apoio."

eu havia confessado a ele que tinha algumas apreensões sobre isso. não exatamente religiosas, uma vez que não sou cristã e não cultuo deidades, mas sou uma total admiradora de Jesus Cristo. este homem é meu modelo de vida, o exemplo que tento guardar em meu coração e mente a cada minuto. embora para mim ele não seja o próprio Deus, mas uma espécie de irmão mais velho e mestre, ele é um símbolo sagrado para muita gente. meu medo era de criar controvérsias sobre colocar um símbolo sagrado nu, e eu não quero ofender ninguém. mas então eu pensei, "espera aí, isso é arte, e arte não é para seguir regras. e desde que sou uma artista e devo expressar meus pensamentos, acho que não tem nada ofensivo em corpos nus. o nu é lindo, meu Jesus vai ser lindo e sim, ele vai estar nu."

no meu trabalho, Jesus é o aguadeiro. meu ponto de partida para esse conceito é Lucas 22:10, que diz "um homen sairá ao seu encontro carregando um cântaro de água; siga-o até a casa onde ele entrar". alguns dizem que esse foi um tipo de anúncio da era de Aquário. achei bem interessante e visualizei Jesus com o tal cântaro de água. ele não foi apenas o avatar da era de Peixes, uma vez que sua mensagem é universal e permanecerá para sempre. e é na era de Aquário que ela será finalmente compreendida e seguida em sua pureza, sem o "véu da letra".

este é o significado na nudez de Jesus: a pureza e a verdade de sua mensagem. nada mais a esconder ou ser corrompido pelo homem em seus interesses políticos, não mais interpretações manipulativas. apenas a verdade, como ela é. nua.

mais tarde, conversando no messenger com meu grande amigo Marcelo Peregrino, eu contei a ele a respeito do projeto e dos meus medos. Marcelo é um grande fã de Jesus, assim como eu, então eu sabia que ele me entenderia. ele então me respondeu com a canção do Gilberto Gil:

Se eu quiser falar com Deus,
tenho que ficar a sós,
tenho que apagar a luz,
tenho que calar a voz.
(...)
Tenho que ter as mãos vazias,
ter a alma e o corpo nus.

em seguida, ele disse, "o Divino é nu."

agora tem produtos com minhas pinturas e ilustrações no RedBubble. eles oferecem cartões e diferentes tipos de reproduções (prints), inclusive com passpatour e já emolduradas. e, é claro, novas adições no futuro. infelizmente o preço é em dolar, enquanto não inventam um serviço parecido no Brasil. visite e espalhe por aí!

na maioria das vezes, artistas figurativos precisam de boas referências visuais de corpos humanos para seus desenhos e pinturas. usar modelo vivo é ótimo, mas quando você não pode pagar por um, uma fotografia decente resolve. e quando você não tem fotografias disponíveis (e você não quer usar uma foto encontrada na web sem permissão, certo?), o que você faz? no meu caso, eu coloco um pouco de base facial, uma faixa de cabelo engraçada que o mantenha longe do rosto, preparo minha camerazinha, procuro por um pedaço de parede clara, tiro a roupa... e em menos de duas horas tenho uma bela série de referências fotográficas.



é divertido e um bom exercício de criatividade, bem como um pequeno revival dos meus tempos de teatro. e o melhor de tudo é que eu sempre (ou quase sempre) consigo as poses certas para o conceito que estou desenvolvendo.



o inconveniente: tenho que fazer um esforcinho para que as figuras desenhadas não se pareçam muito comigo. é meio chato ver sua própria cara em cada pintura, quando sua intenção não é a de construir um auto-retrato.




por isso é que ando em uma desesperada busca por modelos que possam "doar" suas fotos para o meu álbum de referências fotográficas. cheguei a encontrar montes de fotos maravilhosas de gente encantadora, mas não estou mesmo a fim de escrever para elas pedindo permissão para uso das fotos, assim, na cara-de-pau, sem qualquer tipo de pagamento ou retribuição. e eu estou em total necessidade de fotos masculinas!!




as fotos acima são da sessão fotográfica de hoje, algumas das que eu mais gostei. os seios estão embaçados para evitar polemicazinhas bestas (embora eu mesma ache uma bobagem ter feito isso, já que todo mundo sabe como é um peito e só mesmo gente careta e retrógrada iria soltar um "oooohhhhh!" além de tudo, não ficou muito legal, mas é menos estúpido do que aquelas tarjinhas pretas.) nas paredes dá prá ver os rabiscos da minha filha (que sempre arruma um jeito de fazê-los quando não estamos olhando) e os interruptores de luz. mais caseiro, impossível. estou também chegando à conclusão de que preciso de uma câmera melhor. uma que não tire fotos embaçadas quando você não usa sem flash em ambientes pouco iluminados (detesto usar flash) e que tire várias fotos em sucessão, sem que você precise clicar. é muito cansativo ir e vir de trás da câmera todas as vezes que você precisa tirar uma foto.

+

falando de peitos em blogs, me lembrei de uma menina que publicou uma foto de webcam dos próprios seios no blog, há uns bons oito ou nove anos atrás, se não me engano... e foi sumariamente crucificada por causa disso. ô gente careta e machista, viu.

já a algum tempo venho recebendo um bocado de visitas do Brasil ao Mesmerized, coisa que sempre me deixa felizona. como ninguém tem a obrigação de entender inglês, muito menos o meu, resolvi colocar aqui os mesmos posts que coloco lá, devidamente traduzidos. é legal não só porque os meus visitantes de lá poderão ler os posts na língua-mãe, mas porque vou ter um motivo a mais para atualizar o blog com mais frequência. afinal, a pintura tem absorvido uma grande parte da minha vida e nada mais justo que eu dê a meu trabalho um pouco mais de espaço por aqui.

vou começar mostrando e falando um pouco da cria mais nova, O Grito (The Scream).

The Scream

esse é basicamente um trabalho sobre a violência contra a mulher, um assunto que me sensibiliza muito não só por ser mulher, mas também por ser um ser humano e por sonhar e trabalhar por um mundo mais pautado em respeito e igualdade.

quando eu estava pesquisando e buscando referências para o trabalho (vasculhei e li diversos posts do blog da Lola, procurei por outros artistas que houvessem trabalhado o mesmo tema, li artigos sobre a condição feminina em diferentes países, etc), a primeira certeza que tive foi a de que não queria uma peça que passasse uma atmosfera opressiva ou triste ou que mostrasse apenas a dor da violência e do abuso. eu queria algo que fosse masi dinâmico, que funcionasse como uma "voz", que pudesse ajudar as pessoas a refletirem sobre como mudar as coisas.

minha primeira visão foi de uma peça monocromática, em tons de marrom, com alguns toques de vermelho bem forte. porém, mais uma vez eu não pude fazer nada contra o meu impulso para cores e saí distribuindo cores quentes pelo desenho inteiro. no fim, elas acabaram contribuindo para o dinamismo e força do trabalho.

o simbolismo da pintura é bastante simples e direto. há uma figura dual no centro. ela pode ser a mesma mulher em duas diferentes atitudes, como queira. a ruiva está assustada e dolorida. ela segura o próprio coração, que sangra, e usa uma máscara para se manter escondida de julgamentos e outras perdas. ela pode ser a jovem que foi estuprada numa festa depois de beber demais, a que sofreu abuso por um membro da família mas preferiu esconder para não causar problemas na mesma, a mulher que apanhou do marido mas preferiu ficar calada por medo de perder a custódia dos filhos. ela pode ser uma das mulheres do Congo. ela pode ser eu, ou você.

a mulher de cabelos escuros não usa uma máscara. ela está gritando - embora às vezes acho que na verdade ela está cantando. o que ela liberta de dentro dela é um pássaro, vermelho como a vida. é o desejo de se libertar de um mundo conquistado pela força, não pelo amor. ela grita seu direito de ser tratada como um ser humano ao invés de uma cidadã de segunda-classe, como uma parceira ao invés de uma subordinada. seu direito de expressar suas próprias idéias e ter sua própria atitude sem que seja demonizada por isso.

há também máscaras na base da pintura, uma pilha de máscaras sem rostos por trás. elas uma vez pertenceram à mulheres que resolveram gritar ao invés de se manterem caladas e anônimas. que decidiram parar de fingir que o mundo é como é e que nada pode ser feito para mudar. mas há tanto que se pode fazer apenas por se ter voz... exigir responsabilidades políticas e sociais. educar as novas gerações na direção do respeito e da não-propagação de velhos hábitos que colocam os homens em posição privilegiada. denunciar. em outras palavras, exigir respeito por ser um ser humano.

eu gostei tanto do layout que fiz pro meu blog de arte que resolvi seguir o exemplo por aqui também. e já que estou um tanto sem energia por causa de uma gripe repentina, nada como atualizar e pôr um pouco de ordem na minha vida virtual.

continua nevando e frio. nunca vi temperaturas tão baixas aqui pelas terras do norte desde que cheguei. houveram noites em que os termômetros marcaram -19 graus celsius. frio de gelar a alma. dia desses o gelo congelou os cabos de eletricidade e ficamos quase o dia todo sem energia. como o fogão é elétrico, passamos o dia a base de sanduíches e eu penei prá fazer café usando água quente da torneira. não sei como o povo se virava até o fim do século dezenove.



as coisas aqui finalmente começaram a entrar nos eixos. minha bebê passa super bem. a recuperação dela está sendo muito rápida, uma regeneração quase milagrosa, eu diria. engraçado como na maioria das vezes as crianças parecem ser mais fortes que nós, com uma capacidade de superação inimaginável. enquanto eu sofria aqui com sintomas de stress pós traumático, ela parecia pronta prá outra.

família e amigos foram maravilhosos durante esse período. as palavras de ânimo mesmo à distância tiveram um poder incrível de trazer um pouco de calma ao meu coração. a Aninha chegou a ligar para cá para saber como estavam as coisas, e quando a gente está tão distante isso não tem preço, gente.

vou aqui seguindo no meu ritmo, eu diria que agora quase 90% normal, pintando, criando, cuidando da vida. ontem recebi por email essa foto aqui:


sim, uma coisa fofa lá da California se apaixonou por uma das minhas ilustrações e decidiu que ia tatuá-la no braço. ela me disse que o desenho "falou" com ela muito profundamente, que seu simbolismo bateu com uma importante fase da vida dela. ainda não está terminada, é claro, mas ela já mandou a foto prá eu ver como o trabalho está ficando. o que é ter um trabalho seu gravado no corpo de uma pessoa para sempre? quando penso no quanto eu posso transformar e iluminar só por mover meus lápis e pincéis sobre um papel em branco meu coração transborda. é isso o que eu quero fazer pro resto da minha vida, até ficar tão velha que a artrite quase dissolva minhas falanges sobre o papel.

a ilustração original:


The Chemistry (Metamorphosis)

esses dias vi por aí um bocado de gente para quem o ano não começou muito bem. janeiro parece estar sendo um mês meio bruxesco (no mal sentido). não sei como está o céu, não sei se a proximidade do eclipse afetou as pessoas em larga escala. sei que por aqui também tivemos numa cota de angústia.

minha filha sofreu um acidente doméstico na semana passada. não vou entrar em detalhes que não gosto de propagar tristezas, mas foi coisa séria, e por pouco não aconteceu o pior. passamos quase 3 dias no hospital, mas a recuperação dela têm sido rápida e feliz. eu é que não vou muito bem. por conta do que aconteceu estou uma pilha de nervos e com sintomas de pânico novamente. não sei se vou precisar de medicação para me ajudar a segurar esses dias difíceis. estou tentando me segurar em coisas boas, na benção da melhora, em como ela não tem ao menos reclamado de dor e nas palavras de apoio da família e de amigos queridos.

eu sou pessoa crente em Deus, em seres de outras dimensões que cuidam de nós, crente nas muitas coisas que existem além do que nossa vã filosofia concebe, crente que dificuldades são oportunidades de ajuste e aprendizado. não adianta, vidinhas tranquilas não nos ensinam muito sobre coragem e força, ou sobre fé, ou sobre a pequenez das muitas coisas que julgamos tão importantes mas que não passam do pó de pirlimpimpim que nos faz acreditar que somos assim ou assado (i.e, melhores que os outros.) estou aqui dolorida, mas firme. e sobretudo, grata.

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