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ontem à noite uma mulher veio à nossa porta perguntando se não queríamos trocar um gift certificate por 20 pratas em dinheiro. ela precisava comprar algo na farmácia e só tinha o cartão, obviamente não válido em farmácia nenhuma. como raramente temos cash em casa - pagamos praticamente tudo com cartão de crédito ou débito, - não deu prá ajudar.

comentei com meu marido que a coisa estava começando a ficar meio " à brasileira" por aqui. é possível que isso se torne mais frequente daqui prá frente. pessoas vindo à sua porta pedir coisas, ou te abordando em estacionamentos, como aconteceu com minha sogra um dia desses.

as coisas aqui na América não vão indo mesmo muito bem. todos os dias ouvimos notícias de empresas reduzindo drasticamente o número de funcionários. há pessoas com até mais de 20 anos de casa ficando sem seus empregos de uma hora prá outra. e o pior, sem garantias além do seguro desemprego, já que as leis trabalhistas daqui não são nem de longe como no Brasil. fala-se até mesmo numa segunda Grande Depressão, o que não é realmente novidade prá mim, já que o povo da Constelar tinha previsto isso uns bons dois anos atrás.

meu marido se aposentou recentemente depois de mais de duas décadas de serviços prestados ao governo. a maioria das pessoas ficou perplexa, sem saber como as coisas ficariam prá gente depois da redução salarial da aposentadoria, já que o salário dele mesmo integral não era lá essa maravilha e eu não contribuo significativamente para a renda da casa. além disso, ainda temos criança prá cuidar. podemos mesmo ter que abrir mão de certos luxinhos, mas eu dou graças a Deus todos os dias pela segurança de poder pagar as contas, fazer compras e pagar o seguro saúde. pensar que não iremos perder isso nunca mesmo com a crise braba que está ai é reconfortante.

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o sistema de saúde americano, engendrado pelo coisa ruim, também é algo que precisa urgentemente de ajustes . para quem não sabe, os EUA é um dos únicos países do mundo que não possuem serviço público de saúde. se você for muito pobre, você tem direito ao Medicaid, que é uma espécie de plano de saúde do governo. até aí tudo bem. o problema todo é se você não for assim tão pobre mas também não tão "remediado" a ponto de ter condições de pagar o seu seguro de saúde privado. então, querido, é pedir a Deus para não ficar doente, porque se tiver o azar de ir parar num hospital ou clínica para uma dorzinha de barriga que seja, espere receber em sua casa sem demora uma conta que poderá fazer você vender a alma ao capiroto para não ficar encrencado. e se você pensa que mesmo tendo seguro de saúde privado vai ficar livre de tirar dinheiro do bolso, engana-se. geralmente o seguro cobre só uma porcentagem dos seus gastos, dependendo do seu plano. ou seja, só funciona mesmo para que você, em casos extremos, como de uma hospitalização ou cirurgia, por exemplo, não vá a colapso financeiro, já que é estabelecido um limite de dinheiro que poderá sair do seu bolso por ano.

e a injustiça não para por aí. caso você tenha uma condição pré-existente, seja diabético, ou tenha algum problema crônico brabo, esqueça. você tem sérias chances de não se qualificar para plano nenhum. ou seja, vai ter que vender a alma mesmo. ou se mudar para um país onde o seu direito básico de assistência médica seja assegurado. ou esperar a morte chegar. e eu juro que não estou exagerando.

Mr. Barack Obama tem mesmo muito o que fazer por aqui. e eu não acredito que ele vá fazer milagres, não, pois há interesses de muito cachorro grande em jogo, e como são eles que mandam na América, sei não. é esperar prá ver.



se você é professor, seria uma boa mostrar esse videozinho pros seus alunos. dá pé, é só usar a criatividade para encaixar na sua disciplina. é sempre mais fácil plantar a semente cedo, o que não quer dizer que nós também não possamos mudar, é só ter um pouco de boa vontade.

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sempre fui uma pessoa bastante frugal nos meus hábitos de consumo. não foi algo aprendido, não é para bancar a politicamente correta, mas algo que nasceu comigo. sou pão-dura, não gosto de esbanjar dinheiro nem de ostentação. nunca vi graça em ter coisas das quais eu não precisava tanto assim, sempre desprezei modismos e minhas coisas geralmente duram vários anos - algumas, como sapatos ou bolsas, quando se tornam irremediavelmente impróprias para consumo, até me fazem lamentar não ter comprado uma cópia para continuar usando.

me casei com uma pessoa que também não dá importância a ter um mundo de coisas, nem ter o que não precisa só prá se "encaixar" (ok, compra mais livros em um mês do que pode ler em um ano, mas livro é livro, né?). estamos longe de ser ricos, não temos muitas das coisas que a família americana padrão tem - dois carros na garagem, por exemplo - mas na nossa frugalidade vivemos muito bem, obrigada. sem essa de ficar criando necessidades desnecessárias (já basta a conexão wi-fi, que desde que entrou aqui em casa se tornou impensável não tê-la.)

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também tenho pensado mais cuidadosamente na necessidade de se reciclar coisas. não apenas o óbvio, como papel, pilhas, latas, etc., mas objetos mesmo. a umas semanas atrás aceitamos a doação de móveis de quarto para a pequena, vinda de um amigo. os móveis não são nem de longe o que eu queria para ela - são rococó e girlie ao extremo - mas é só usar a imaginação para fazê-los funcionar. retirei os detalhes mais pomposos, como o espelho do gaveteiro (que eles chamam de dresser) e os posts da cama (aqueles postes colocados nos quatro cantos da armação da cama cuja utilidade eu ainda não descobri e que acho um horror.) uma ou duas demãos de tinta branca all over e poupamos o planeta de mais um pouquinho de lixo.

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umas das primeiras coisas que percebi desde que cheguei aqui na América é esse consumismo descrito no vídeo. as pessoas compram alucinadamente, já que as coisas em geral são muito baratinhas - veja o vídeo também para entender o porquê. é só entrar num Wal Mart qualquer da vida prá descobrir um monte de coisas que você estava justamente "precisando"... e que em poucos meses vão para o lixo, ou para o Good Will mais próximo (espécie de loja de caridade que explora justamente esse lado do americano de descartar as coisas das quais não precisa ou não quer mais, e que acaba fazendo as pessoas se sentirem menos culpadas pelo consumismo louco). afinal, o "lixo" de uns pode ser o tesouro de outros... 

aqui cada casa tem seu "building", uma espécie de casinha que fica no fundo do quintal e que serve só prá guardar tralha. é tanta coisa inútil que existem até conteineres de aluguel para o povo guardar seus excessos.

uma prática legal deles para passar para frente o que não precisam mais são os "yard sales", ou "garage sales". monta-se uma espécie de feirinha no quintal com os artigos, e vende-se para os passantes por um preço bem baratinho. aqui na vizinhança sempre tem algum, mas sempre fui muito tímida para visitar.  


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o vídeo fala bastante dos efeitos do sistema numa sociedade como a americana, mas em países como o Brasil, por exemplo, os efeitos podem ser ainda mais devastadores. afinal, criando-se "necessidades" numa sociedade em que a maior parte mal tem o que pôr na mesa, criam-se também monstros. ou vocês são tão ingênuos a ponto de acreditar que a maioria dos crimes cometidos por delinquentes e marginais nas cidades grandes são movidos pela "fome" e pela "falta de oportunidades"? só se for a oportunidade de ter um tênis da Nike...

portanto, se você é uma daquelas pessoas que ralam o mês inteiro num escritoriozinho da Av. Rio Branco, e que deixa o seu minguado dinheirinho numa dessas lojas de grife só prá dar uma de bacana, deixa de ser BABACA e e entende que você está apenas sendo um fantoche do mesmo sistema que te tira a saúde, a oportunidade de educação e crescimento, e que depende de idiotas como você para continuar existindo.

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eu estou ainda longe de ser um modelo de virtudes ecológicas, mas vou aqui tentando um pouquinho a cada dia. infelizmente muitos produtos biodegradáveis e orgânicos ainda pesam no bolso,  e muitas medidas ecologicamente corretas ainda não condizem com a realidade em que a gente vive (por exemplo, você se imagina usando  isso aqui no Rio-40-graus, às seis horas da tarde, voltando do trabalho, num ônibus/trem lotado??)  mas sempre têm coisas mais simples que todo mundo pode fazer, é só ter um pouquinho de boa vontade.
  • pense bem antes de comprar por impulso, ou só porque você não queria perder a liquidação, ou porque você resolveu acompanhar a amiga naquela loja de grife e não queria ficar por baixo saindo de lá de mãos vazias.
  • sempre que puder, recicle. invente formas novas de se usar aqueles velhos móveis, ou aquela roupa que você já cansou mas que ainda está em bom estado. às vezes, certos objetos podem ganhar funções novas e se transformarem em outros totalmente inusitados.
  • separe o seu lixo. orgânicos de um lado, recicláveis (latas, papéis) de outro. não dá trabalho.
  • sempre que puder, valorize e prestigie a produção artesanal. 
  • todos os dias, permaneça no chuveiro cinco minutinhos a menos. procure reaproveitar a água para outros fins. não deixe as torneiras escorrendo. e pare de lavar a calçada com água limpa da torneira.
  • deixe prá beber água engarrafada na rua, quando não há outra alternativa prá matar a sede. em casa valorize a água da torneira - devidamente filtrada, é claro.
  • apague as luzes dos cômodos da casa onde não há ninguém no momento. substitua suas lâmpadas comuns pelas fluorescentes.
  • reaproveite folhas de papéis usadas apenas de um lado fazendo, por exemplo, bloquinhos de notas ou rascunho. como eu sou desenhista e uso muito papel, geralmente aproveito o meu para estudos ou corto em quadradinhos, para usar como provas de aquarela.  o que não dá mais mesmo para usar vai para reciclagem.
  • dê mais valor ao seu direito de voto. apoie candidatos realmente comprometidos com a causa ecológica.
  • espalhe o videozinho "A história das coisas" por aí.
  • você está vivendo tempos formidáveis, onde temos total acesso à liberdade de expressão através dessa maravilha que é a internet. aproveite: crie um blog, expresse suas opiniões, espalhe suas dicas de como ajudar a tornar o planeta mais legal de se viver.  

ficar amarrado ao departamento de imigração é um saco. felizmente estou saindo da minha condição provisória de residente: o green card definitivo me dará direito a dez anos sem dar as caras no escitório da imigração e pagar taxas exorbitantes para renovação disso ou daquilo.

às vezes penso em aplicar para naturalização, mas ainda não sei exatamente que grandes vantagens terei em substituir o passaporte verde pelo azulzinho com a águia dourada. fora que estudar história americana não está exatamente nos meus planos para os próximos anos.

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Louisville é uma graça de cidade. é considerada cidade grande mas em comparação com o Hell de Janeiro, em certos pontos, me parece uma cidade do interior super desenvolvida. aliás, essa é uma característica das grandes cidades americanas que já conheci - não muitas, aliás. não há nada de caótico, as coisas todas se harmonizam, é como se as pessoas, a arquitetura e o fluir da vida em geral vibrassem todos juntos. eu não sou fã de cidades grandes, mas acho que viveria sem neuras numa aqui da América.

para fotos tiradas dentro de um carro em movimento, até que não ficaram tão ruins assim. a ponte passa sobre o Mississipi.



recebi hoje por email, de pessoa sábia e super cute. eu adoro o Gibran, e concordo com cada vírgula desse texto. compartilho, pois.

DO TRABALHO

Depois, um operário pediu-lhe: Fala-nos do trabalho.
E ele respondeu:
Vós trabalhais para acompanhar o ritmo da terra e da alma da terra.
Pois estar ocioso é tornar-se estranho às estações e sair da procissão da vida que caminha com majestade e orgulhosa submissão, rumo ao infinito.

Quando trabalhais, sois como uma flauta, e no coração dessa flauta o murmúrio das horas transforma-se em música.
Quem de entre vós quereria ser uma cana muda e silenciosa, quando tudo ao redor canta em uníssono?
Sempre vos foi dito que o trabalho é uma maldição e o labor um infortúnio.
Mas eu vos digo que, ao trabalhar, acumulais um fragmento do sonho último da terra que vos foi atribuído quando esse sonho nasceu,
e é quando vos ligais ao trabalho que verdadeiramente amais a vida.
Amar a vida pelo trabalho é ter intimidade com o segredo mais íntimo da vida.

Mas se, na vossa dor, chamais aflição ao nascimento e à manutenção da carne uma maldição gravada sobre a vossa fronte, então respondo-vos que só o suor da vossa testa apagará o que aí estiver escrito.

Também vos foi dito que a vida são trevas e na vossa fadiga vos fazeis eco de tudo o que os cansados vos disseram.
E eu digo que sem movimento a vida é, com efeito, trevas
e que todo o movimento é cego sem o saber,
e que sem trabalho todo o saber é vão,
e que sem amor todo o trabalho é vazio,
e que, quando trabalhais com amor, vos ligais a vós mesmos, uns aos outros e a Deus.

E que significa trabalhar com amor?
É tecer o pano com fios arrancados do vosso coração, como se o vosso bem-amado se fosse enfeitar.
É construir uma casa com carinho, como se o vosso
bem-amado nela fosse habitar.
É semear com ternura os grãos e recolher a colheita com alegria, como se o vosso bem-amado lhe comesse o fruto.
É deixar em tudo quanto fazeis um sopro da vossa própria alma,
e saber que todos os mortos bem-aventurados estão à vossa volta a contemplar-vos.

Muitas vezes ouvi-vos dizer como que num sono: «O que trabalha o mármore e encontra na pedra forma da sua alma, é mais nobre que aquele que trabalha a terra.
« E o que pega no arco-íris e o estende na tela à imagem do homem é superior àquele que faz as sandálias para os nossos pés.»
Ora, em verdade vos digo, não a dormir, mas em plena vigília do meio-dia, que o vento não fala cor mais ternura aos carvalhos gigantes do que ao mais humilde rebento de erva;
e só é grande aquele que converte o rugir do vento num cântico que o seu próprio amor tornou mal suave.

O trabalho é o amor tornado visível.
E se não podeis trabalhar com amor, mas com tédio, melhor seria renunciar ao vosso trabalho, sentar-vos à porta do templo e solicitar a esmola daqueles que trabalham com alegria.
Pois se, com indiferença, fazeis o pão, o vosso pão será amargo e saciará apenas metade da fome do homem.
E se, a contragosto, esmagardes as uvas, a vossa aversão destilará veneno sobre o vinho.
E se cantais como cantam os anjos, mas sem amar o cântico, ensurdecereis os ouvidos dos homens às vozes do dia e às vozes da noite.

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os americanos não comemoram o dia do trabalho no primeiro de maio, como todo mundo. aqui é em setembro - chamado Labor Day. anti-comunista? que nada...

os brasileiros têm muitos mitos em relação aos Estados Unidos e ao povo daqui que me irritam. talvez um dos piores seja o de achar que todo mundo que vêm para cá como imigrante se dá bem, fica rico, etc. eu moro aqui há quase 3 anos e, apesar de trabalhar um bocado para ter meu trabalho reconhecido, continuo tão dependente do meu marido como no dia que cheguei aqui. no entanto, um bocado de gente pensa que estou muito bem de vida, obrigado, e que os países de primeiro mundo são o paraíso na Terra.

prá começar, a América não passa de um ídolo de pés de barro. já teve seu período áureo, mas agora é só um império que vai decaindo a olhos vistos, entre produtos made in China, corporações famintas por dinheiro e o retorno da Santa Inquisição travestida de igrejas evangélicas. oportunidades ainda há - principalmente para quem não se importa em limpar chão ou ficar atrás de um balcão do Margh Donald´s. mas se seu negócio é trabalhar fazendo algo que honre seus muitos anos sentado em bancos escolares e universitários, é melhor você ser muito bom e se preparar para trabalhar dobrado, quem sabe até estudar mais para se enquadrar às exigências americanas. porque a realidade do trabalho na América, senhores, é duríssima. justamente por causa das oportunidades, as pessoas acreditam e vão atrás do que querem, fazendo a concorrência ficar ainda mais acirrada. aqui não tem "jeitinho" nem padrinho (esse deve até ter, mas não de forma escancarada e cafajeste como no Brasil.) mesmo com sorte e ajuda, tem que ter talento e trabalhar duro. esqueçam os fins de semana e férias remuneradas, o FGTS, o décimo terceiro, e dêem graças a Deus pelas misericordiosas leis trabalhistas do patropi, porque aqui se não trabalhar, não come.

minha área - ilustração e artes visuais - é bacana por ser muito ampla e variada. aqui as pessoas gostam e compram arte (nem que seja prá decorar a sala), além de, em geral, respeitarem e valorizarem o artista. o mercado de publicações - livros e revistas - é um mundo. o que não faltam são nichos onde se enquadrar, dos mais conservadores aos mais insólitos. o que não quer dizer que tem lugar prá todo mundo. tem muita gente insuportavelmente boa disputando mercado, seja ele qual for. o que significa que você, além de ter que estar entre os melhores, tem que ser onipresente. não adianta só colocar um site na internet e esperar os pedidos, não funciona desse jeito. tem que fuçar tudo quanto é canto e colocar a cara. se for um artista comercial, precisa estar atento ao que seu público em potencial quem ver - o que muitas vezes custa o sacrifício de sua satisfação artística, inspiração e originalidade no altar no lugar-comum. não é fácil.

a quem tem seu emprego estável no Brasil, trabalha com o que gosta, ou com o que estudou anos para fazer, e ainda pensa em vir para cá (alguém ainda pensa? dizem que o Canadá agora é a nova meca da imigração, né?), eu sugiro pensar duas vezes. a vida aqui não é tão fácil quanto se imagina, não existe sistema público de saúde, o mamão papaya (verde e feio) custa 5 bucks no supermercado e até você conseguir pagar o aluguel sem precisar dividir com mais 10 pessoas vão-se longos meses de lavação de pratos e levantamento de bandejas. e esqueça essa história de ficar rico na América, isso já passou para a mitologia do país. se mesmo assim você acha que vale a pena tentar, boa sorte. principalmente se achar que ainda existem coisas mais importantes na vida (como viver com uma certa dignidade, por exemplo) do que a praia e o feijão.


sempre tive pavor de tempestades. gosto muito de chuva, muito mesmo, mas trovoadas, relâmpagos e ventania me dão vontade de me enfiar no buraco mais próximo e ficar lá bem quietinha até tudo passar.

ontem sabíamos que chegaria uma bruta tempestade à noite, mas eu não esperava ser acordada pelo alarme de tornado da comunidade à uma da manhã. pulei da cama com o coração na boca, e olhei pela janela. as árvores de caule mais frágil estavam envergadas num ângulo de quase 45 graus. haviam coisas voando, e o céu tinha uma coloração de filme de terror. de repente, apagaram-se as luzes lá de fora. entre pensamentos de "e agora?" e "eu quero voltar pro Brasil", já me preparava para agarrar minha filha (que não fora acordada pelo zunido ensurdecedor do alarme) e carregar para o lugar mais seguro da casa - o banheiro, segundo meu marido. fui para sala e liguei a tv. havia uma faixa vermelha no canal do tempo dizendo "procure abrigo agora!", mas também um aviso de tornado que não era, para nós felizmente, para essa região. a tempestade estava se deslocando para o norte, e em dentro de quinze minutos pude ir para a cama mais tranquila e pegar no sono.

hoje pela manhã, lá fora, haviam árvores partidas, pedaços do telhado e galhos por todos os cantos, e as vidraças do back porch - espécie de varanda com paredes e vidraças que as casas daqui possuem na parte dos fundos - haviam se estilhaçado e estavam espalhadas pelo chão.

foi só um susto, e bem dado - e no, thanks, eu não quero saber como é a coisa de verdade.

aqui na América, assim que o Thanksgiving Day se vai, os preparativos para o Natal começam num ritmo frenético. a tv inunda a sala com aqueles filmecos de Natal que eu odeio, 99% dos comerciais de tv vêm com uma hedionda trilha sonora natalina e eu constato com um certo vazio o quanto continuo indiferente à tudo isso . sempre tive sentimentos ambíguos em relação ao Natal. não compartilho da euforia geral, e o consumismo sem sentido e a onda de caridade de fim de ano - como se os pobres só aparecessem em época de Natal - me irritam. mas por outro lado, fico contente que haja, ao menos uma vez por ano, um tempo em que as pessoas pensem um pouco nos outros, um tempo de trocar e confraternizar.

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e desde o Thanksgiving não paro de comer besteira. a oferta de coisinhas que acalentam o espírito, como tortas, cookies e eggnog com whisky é mais forte do que se pode resistir. já engordei 1 quilo e meio nessa brincadeira. o que me faz mais uma no rol dos que incluem uma bela dieta em sua lista de ano novo. e eu, que estava tão contente por conseguir caber em um dos meus jeans pré-gravidez...

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eu sinto falta do fim de ano do Brasil, mesmo com o calorão. sinto falta de música alta, dos fogos e gente aparecendo em sua casa depois da meia noite prá filar um copo de vinho. é verdade que por aqui o Natal é mais "família" e tranquilo, coisa que muito me agrada, mas que também faz a melancolia da data parecer maior.

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meu marido, que adora decoração de Natal, fez planos de ter uma árvore natural na sala esse ano. não deu certo: além de não ter conseguido um suporte adequado para a árvore, descobriu-se alérgico. acabou comprando uma artificial, de ramos bem fininhos, e se divertiu recheando-a com os milhares de enfeites from Germany adquiridos nos últimos dez anos. o resultado foi uma árvore não-convencional, e você pode passar horas olhando para ela e descobrindo detalhes diferentes. pena não ter uma câmera que faça justiça, mas dá prá ter uma idéia do delicioso caos:






a exposição foi boa; não perfeita, nem o que eu esperava, mas valeu a pena, mesmo assim. mesmo que as vendas não tenham sido lá grande coisa (nem eu esperei que fossem, e aliás nem era essa a minha intenção) deu prá ficar um pouco mais conhecida fora da net e ver ao vivo as reações das pessoas ao se depararem frente a frente com meus rabiscos. beautiful.


Lexington Pagan Pride DayLexington Pagan Pride Day
Lexington Pagan Pride DayLexington Pagan Pride Day

o evento foi sensacional. mesmo que não tenha dado prá interagir muito, ou participar de workshops, saí de lá energizada. fantásticos, o lugar e as pessoas. a Belle também se divertiu. ano que vem estarei lá novamente, não só como artista como também como parte da equipe organizadora - e, se meu inglês deixar, liderando um workshop de astro. e eu tenho um problema crônico de não tirar fotos quando devo.

Lexington Pagan Pride DayLexington Pagan Pride Day


eu quero morar em Lexington.


dia 23 próximo comemora-se, aqui nos EUA, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day). é um dia de confraternização, onde as pessoas costumam reunir-se em família, geralmente em torno de um jantar onde o peru é prato principal. como o próprio nome diz, é uma data de agradecimento a Deus pelas boas coisas recebidas durante o ano. acho a data linda, singela, e é uma pena que não tenhamos também no Brasil um dia especial de agradecer.

meu primeiro Thanksgiving foi ano passado, eu ainda engatinhando no meu processo de adaptação aos costumes norte-americanos. mas a partir desse ano, a data passa a ser incorporada de vez ao meu calendário pessoal: é que minha filha vai nascer mais ou menos nessa época. tá pertíssimo, e naturalmente já estou aqui inundada de ansiedade. um fato curioso é a sincronicidade envolvendo esse acontecimento: primeiro tem o nome que escolhemos para ela - Isobel, versão escocesa de Isabel, que significa "consagrada à Deus". segundo, tem o signo: muito provavelmente Isobel nascerá sob sol ou lua sagitarianas, signo ligado às coisas religiosas, regido por Júpiter, o pai dos deuses. claro que não tínhamos idéia de nada disso, foi pura coicidência mesmo. ou melhor, pura sincronicidade.

terei sem dúvida muito a agradecer nesse Thanksgiving.

na verdade, eu sempre fui mais de agradecer do que de pedir. e desde muito tempo aprendi a reconhecer o quanto tenho prá agradecer, apesar da vida estar sempre precisando de remendos (e qual vida não precisa...), e que eu sou às vezes uma baita egoísta por ainda me angustiar com coisas pequenas. houve uma época em que estive bastante envolvida com trabalhos de assistência à gente necessitada. um contato direto e rico com a privação do mínimo, que me ajudou ainda mais a ter uma perpectiva de que todos temos, sempre, todos os dias, motivos para agradecer.

e que fique claro: dar graças à tudo não significa uma resignação estéril. sou da opinião de que merecemos sempre o melhor que pudermos, quando esse melhor for justo. mas não ter o melhor não significa que não podemos nos sentir privilegiados, principalmente porque sempre haverá alguém para quem as coisas são sempre um pouco mais difíceis.

importa agradecer mesmo o emprego mal pago, quando há tantos vivendo o dia pelo dia, sem a perspectiva de um salário no fim do mês, por mínimo que seja.
agradecer o feijão e arroz sem carne, quando para muitos isso seria um luxo.
agradecer a água que sai da torneira.
agradecer a risada do filho.
agradecer o dia de sol.
agradecer, sobretudo, por poder agradecer.

"In everything give thanks"
1 Thessalonians 5:18


imagem: Corbis

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