sei que esse é o chavão dos chavões, mas passaram rápido esses dois anos. mais rápido do que eu poderia imaginar. dá a impressão de que o tempo de alguma forma parou dentro da gente, mas seguiu veloz do lado de fora. parece que voltei do hospital da semana passada, com você pequenina nos braços, exausta pela semana onde dormira uma média de duas horas por dia, mas com uma força por dentro que me mantinha corajosamente de pé. desde então tenho acompanhado cada momento, cada passo seu. sou daquelas mães afortunadas que não precisam deixar seus filhos aos cuidados de outros justo nos primeiros anos, e isso nos fez quase a mesma pessoa. às vezes penso se você consegue entender que não somos, porque é difícil te deixar nem que seja por trás de uma porta fechada. me pergunto se ficaremos assim a vida toda, como vai ser quando chegar aquela fase onde as crianças se acham auto-suficientes e ficam com vergonha de andar com os pais à tiracolo. mas eu vou entender, juro.

você já fala um monte de palavrinhas - todas em inglês, prá um pouco de tristeza minha. mas também tenho parte da culpa, graças ao costume de falar inglês todo o tempo. mas não desisto de querer que você cresça bilíngue, já que você é metade brasileirinha, apesar da caucasianice. amo seu riso fácil, seu interesse pelos livrinhos e, acima de tudo, seu amor pelos bichos. é comovente ver com que loucura você corre para abraçar a Morgan, nossa gatinha, que não é muito melosa e às vezes se impacienta e foge de você, mas que já te ama e respeita do mesmo modo que a mim e a seu pai. juro que ela parece tomar conta de você quando você sai para brincar no quintal, sempre por perto, como um guarda-costas. dia desses você levou um tombo da escadinha no closet e ela correu para ver o que tinha acontecido. eu sabia que crianças e bichos eram cúmplices mas nunca havia testemunhado isso. o mundo é mágico, né?

outra coisa que me encanta é sua bondade. você é um espírito generoso, doce, parece que veio para ajudar a curar o mundo e eu não tenho dúvidas disso. as pessoas sentem isso em você, ficam atraídas. você adora agradar a gente, e fica feliz demais quando nós reconhecemos isso e te aplaudimos a cada livrinho que você põe de volta na estante, ou a refeição que consegue terminar. você gosta de compartilhar coisas, adora dividir sua comida comigo ou com a Morgan, e às vezes quando você puxa a minha cabeça prá perto e faz carinho nos meus cabelos, me sinto amparada por um anjo. mas por outro lado você é rebelde, teimosa até a medula, é difícil fazer você entender que uma coisa é errada, pois isso parece não te convencer nem um pouco. às vezes é exasperante, mas a verdade é que eu sorrio por dentro... tomara que não seja apenas coisa de criança e que você siga com esse inconformismo.

você não faz idéia de quantas vezes já te beijei os cabelos agradecendo por você ter entrado na minha vida.

Feliz Aniversário.

ontem à noite uma mulher veio à nossa porta perguntando se não queríamos trocar um gift certificate por 20 pratas em dinheiro. ela precisava comprar algo na farmácia e só tinha o cartão, obviamente não válido em farmácia nenhuma. como raramente temos cash em casa - pagamos praticamente tudo com cartão de crédito ou débito, - não deu prá ajudar.

comentei com meu marido que a coisa estava começando a ficar meio " à brasileira" por aqui. é possível que isso se torne mais frequente daqui prá frente. pessoas vindo à sua porta pedir coisas, ou te abordando em estacionamentos, como aconteceu com minha sogra um dia desses.

as coisas aqui na América não vão indo mesmo muito bem. todos os dias ouvimos notícias de empresas reduzindo drasticamente o número de funcionários. há pessoas com até mais de 20 anos de casa ficando sem seus empregos de uma hora prá outra. e o pior, sem garantias além do seguro desemprego, já que as leis trabalhistas daqui não são nem de longe como no Brasil. fala-se até mesmo numa segunda Grande Depressão, o que não é realmente novidade prá mim, já que o povo da Constelar tinha previsto isso uns bons dois anos atrás.

meu marido se aposentou recentemente depois de mais de duas décadas de serviços prestados ao governo. a maioria das pessoas ficou perplexa, sem saber como as coisas ficariam prá gente depois da redução salarial da aposentadoria, já que o salário dele mesmo integral não era lá essa maravilha e eu não contribuo significativamente para a renda da casa. além disso, ainda temos criança prá cuidar. podemos mesmo ter que abrir mão de certos luxinhos, mas eu dou graças a Deus todos os dias pela segurança de poder pagar as contas, fazer compras e pagar o seguro saúde. pensar que não iremos perder isso nunca mesmo com a crise braba que está ai é reconfortante.

*
o sistema de saúde americano, engendrado pelo coisa ruim, também é algo que precisa urgentemente de ajustes . para quem não sabe, os EUA é um dos únicos países do mundo que não possuem serviço público de saúde. se você for muito pobre, você tem direito ao Medicaid, que é uma espécie de plano de saúde do governo. até aí tudo bem. o problema todo é se você não for assim tão pobre mas também não tão "remediado" a ponto de ter condições de pagar o seu seguro de saúde privado. então, querido, é pedir a Deus para não ficar doente, porque se tiver o azar de ir parar num hospital ou clínica para uma dorzinha de barriga que seja, espere receber em sua casa sem demora uma conta que poderá fazer você vender a alma ao capiroto para não ficar encrencado. e se você pensa que mesmo tendo seguro de saúde privado vai ficar livre de tirar dinheiro do bolso, engana-se. geralmente o seguro cobre só uma porcentagem dos seus gastos, dependendo do seu plano. ou seja, só funciona mesmo para que você, em casos extremos, como de uma hospitalização ou cirurgia, por exemplo, não vá a colapso financeiro, já que é estabelecido um limite de dinheiro que poderá sair do seu bolso por ano.

e a injustiça não para por aí. caso você tenha uma condição pré-existente, seja diabético, ou tenha algum problema crônico brabo, esqueça. você tem sérias chances de não se qualificar para plano nenhum. ou seja, vai ter que vender a alma mesmo. ou se mudar para um país onde o seu direito básico de assistência médica seja assegurado. ou esperar a morte chegar. e eu juro que não estou exagerando.

Mr. Barack Obama tem mesmo muito o que fazer por aqui. e eu não acredito que ele vá fazer milagres, não, pois há interesses de muito cachorro grande em jogo, e como são eles que mandam na América, sei não. é esperar prá ver.

...e Barack Obama acaba de ser eleito o novo presidente dos Estados Unidos. nem quando o Lula ganhou as eleições pela primeira vez fiquei tão emocionada.

não acho que ele segura a crise, mas se trouxer as tropas de volta, investir em fontes alternativas de energia e der um jeito no vergonhoso sistema de saúde americano já está de bom tamanho.

desde que me entendo por eleitora eu voto no Gabeira. ele era aquele cara revolucionário, progressista, com quem eu sempre me identifiquei. um cara que se destacava totalmente da mesmice e caradurismo do Congresso. era só o Gabeira concorrer para alguma coisa e meu voto era dele, religiosamente. portanto, foi com muita alegria e surpresa que recebi, aqui em terras do Norte, a notícia de que Gabeira estava na corrida para prefeitura do Rio. apesar de não votar no Rio, acho a eleição importantíssima porque, mesmo morando na Baixada ou Zona Norte, é lá, na capital, que grande parte da população passa boa parte de seu tempo.

então ontem veio a notícia de que o Gabeira perdeu. mesmo depois de ter feito uma campanha simpática, limpa, diferente e descomprometida com alianças sinistras e politicagem. perdeu porque a classe média achou mais importante ir aproveitar o feriadão (estrategicamente planejado) à ir à urnas. as abstenções foram de mais de 100 mil. era preciso apenas metade desses votos para tirar o Rio do limbo em que foi jogado desde muitos governos atrás.

mas o carioca preferiu ir aproveitar o feriadão. mais valor tem 3 dias de prazer do que 4 anos de choro. afinal, tá todo mundo já acostumado à violência, à favelização, ao descaso, aos corredores lotados dos hospitais sem recursos, à falta de professores nas escolas. é só apertar mais um pouquinho que dá.

vergonha, sabe. vergonha e tristeza. a ignorância continua vencendo. e quem poderia fazer algo a respeito não faz. vai à praia. quem sabe achando que um voto não teria assim tanto peso. o problema todo aparece quando 55 mil pessoas pensam a mesma coisa. depois vai todo mundo colocar uma camisetinha branca e abraçar a Lagoa.

e a letra do Renato Russo não me saía da cabeça.

Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?

*

medo, muito medo. a situação aqui em terras do Tio Sam também está a perigo. só que aqui não tem populismo, cheque-cidadão, nem se troca botijão de gás por voto. a imbecilidade aqui é baseada numa imagem retrógrada de uma América "família" e limpinha, onde todos vão juntos à igreja, não existem gays (nem negros, para muitos) ou socialistas e onde as glórias militares ecoam em cada lar. é nessa imagem com sabor de mashed potatoes e pumpkin pie que metade da América se agarra em busca da preservação de seus valores - e de uma hipocrisia amarelada. vão atrás de Bushes e McCains como se os mesmos fossem os paladinos do sonho americano. que por sinal anda muito mal das pernas. tenho medo de que a metade progressista e idealista da América, a mesma que luta por Obama na presidência, se veja de uma hora prá outra órfãos de sonho. iguaizinhos aos irmãos Sul Americanos da tal cidade maravilhosa.

e depois, a que se agarrar?

pessoas, pessoas. o mundo está mudando, a velha ordem está agonizando e a despeito de todas essa gente do mal, VAI desaparecer. quem for do bem, assuma o seu papel, porque ficar em cima do muro agora não ajuda em nada, apenas consente-se que o mal prossiga. estamos todos dentro do mesmo barco. o capitalismo já caminha para um colapso, para mostrar o quanto a filosofia do egoísmo e do lucro a qualquer preço já não tem mais lugar. é hora de uma mudança de postura, mais global e comprometida com o outro. de entender que jamais haverá paz ou segurança ou prosperidade real se um só ser na face desse planeta estiver sofrendo por causa do que um outro causou.

*

na minha opinião tem duas partes boas na história. uma é que o Gabeira saiu dessa com a imagem mais fortalecida e sólida e uma reputação que valerá muito mais do que 4 anos no poder. plantou uma semente poderosa, deixou um exemplo que deve estar, lá no fundo, martelando de forma indesejada na cabeça de muita gente de "poder". a outra é que, com tudo isso, o Gabeira perdeu por uma margem muito, muito pequena. mesmo com todo o jogo sujo do outro lado. prá mim, isso foi uma vitória. e um indicador de que, aos poucos, o povo vai abrindo os olhos, devagarzinho, o que já denota uma mudança. soube que a mobilização a favor do Gabeira foi belíssima, de gente inteligente e engajada. ainda não foi dessa vez, mas eu acredito que um dia a gente chega lá. porque não se pode retardar por muito tempo o caminhar do progresso.

sou o tipo de pessoa que acredita que a gente tem que passar pela vida contando apenas as bençãos. ainda que a parte onde os problemas e as dores seja maior.


na minha vida, a parte das bençãos com certeza leva a melhor. uma delas é esse moço aqui, libriano típico, que além de talentoso e refinado, ainda por cima é meu melhor amigo.

sei que ele preferiria que eu escrevesse um poema, mas como a inspiração para escrever sobre pessoas reais anda baixa, eu ofereço uma musiquinha que é a nossa cara.

feliz aniversário, Fio. 


esta manhã, pesquisando sobre vegetarianismo, cheguei ao vídeo "Earthlings" ("Terráqueos", em português) no Youtube. não é exatamente um vídeo pró-vegetarianismo, mas um documentário ao mesmo tempo sensível e cruelmente realista sobre as várias formas de subjugação dos animais pelos seres humanos. mostra, sem reservas e sem comentários tendenciosos a favor deste ou daquele movimento, a via dolorosa dos animais para nos alimentar, entreter, vestir, auxiliar nos "avanços científicos", ou seja, todas aquelas coisas que a gente está careca de saber mas finge que não sabe porque ainda é egoísta demais para abrir mão de certos luxos e prazeres.

não consegui ver o vídeo inteiro e pulei várias partes. o que vi quase fizeram as minhas glândulas lacrimais derreterem. fiquei mal-humorada e triste o resto do dia.

depois do supermercado, como de costume, fomos almoçar num dos restaurantes mexicanos da cidade. a visão dos pratos com carne nas fotos do cardápio só me faziam pensar no maldito vídeo. acabei pedindo um prato com peixe, e não com frango, como sempre faço. claro que isso não suaviza nada, é uma morte por outra. tanto o peixe como o frango sofrem da mesma forma, mas eu estava tentando me iludir um pouquinho.

sempre pensei muito em me tornar vegetariana. na verdade, até tentei, uma vez. não durou muito. adoeci - embora não pela falta de carne, acredito eu - e minha mãe me fez comer um peixinho prá restaurar as energias. desde então, a carne voltou com tudo e ficou só o projeto para quem sabe um dia. nunca mais tentei. e porque essa vontade tem se manifestado com força novamente é que eu tenho feito essas pesquisas a respeito do modo de vida vegetariano, cardápios e tudo o mais. eu não tenho o menos problema com comida natural, curto tofu, carne de soja, hamburguer de feijão, todas essas coisas que fazem a maioria das pessoas torcer o nariz. e não acho absolutamente que você está abrindo mão dos prazeres da vida só por não comer carne. prazer é um conceito por demais relativo.

na verdade, eu já liquidei parte do processo há muito: não como carne vermelha desde os idos dos meus 21, 22 anos, creio. minha decisão foi baseda em questões de saúde e espirituais. para quem chegava a comer carne crua, foi difícil, muito difícil, e escorreguei inúmeras vezes. a pior tentação era o churrasco, cheirinho de carne queimando na brasa era duro de resistir. eventualmente chegava a degustar uma linguicinha, uma fatia de presunto. até que parei com tudo de vez. não sei dizer como eu estaria agora se ainda comesse carne, se estaria diferente, mais doente, ou aparentando mais idade. não sei se minha gravidez teria sido mais problemática - nunca tive a menor alteração na pressão ou inchaço, problemas muito comuns, mesmo tendo engravidado já com 35 anos. sei que me sinto bem sem a carne e nunca tive nenhum dos problemas atribuídos a falta dela, como anemia, por exemplo.

como já disse, minhas razões para riscar as carnes do meu cardápio não passam só pela questão da saúde, mas também pelas questões espirituais. há várias coisas que nós não vemos mas que são parte da realidade, coisas que interagem com nossa vida material e a afetam muito mais do que imaginamos. no entanto, o meu principal motivo é mesmo a compaixão pelos animais. sempre me incomodou o fato de gostar de bichos e comer alguns deles. me sinto hipócrita, conivente com uma indústria que talvez seja a mais cruel e covarde da face da terra. e usando o velho pretexto de que o homem está no topo da cadeia alimentar, que é coisa da natureza, etc, vou fritando o meu filezinho de frango e comendo o meu sashimi tentando não sentir culpa.

mas está ficando muito claro para mim, agora, que está sim, na hora em que nós, humanos, comecemos a parar de nos ver no topo da cadeia alimentar e enxergamos os animais como irmãos menores que precisam de nosso auxílio para evoluir. pelo menos em nossa sociedade foi-se o tempo em que os meios de sobrevivência eram escassos e não tínhamos muita opções. hoje em dia temos supermercados abarrotados de coisas e alimentos frescos em qualquer época do ano à altura do braço.

bom, acho que o vídeo me deu o empurrãozinho que faltava, apesar de ter despedaçado o meu coração. não sei o que vai ser daqui prá frente, mas estou praticamente resolvida a abandonar a carne de vez. sei que vai ser um caminho difícil - mas afinal, se consegui me livrar completamente do hábito das carnes vermelhas, há esperança também para as brancas. e se você como eu também precisa de uma ajuda extra para seguir de vez a rota do vegetarianismo, tá aqui a primeira parte do vídeo. mas aviso de antemão, não é para corações fracos.


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